quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Vida de Shark Feeder



Esta semana fiquei revoltado com as noticias da morte de 2 tubaroes: um raro Anequim de 380 kg que foi pescado "acidentalmente" (que piada) na Flórida e a da fêmea de Tubarão Martelo que foi morta a facadas em uma praia de Santa Catarina. Infelizmente, estas noticias ainda nos mostra uma dura realidade: o ser humano ainda não aprendeu a apreciar estes animais e por isso eles estão ameaçados.
Se não fizermos algo em pró destes animais, a saúde do oceano ficará gradualmente comprometida.

Os tubarões possuem um valor ecológico inestimável. Eles não só eliminam os peixes doentes e fracos, permitindo que apenas os mais sudáveis se reproduzam, como também, por serem predadores de topo de cadeia alimentar, eles mantêm sob controle a população de outros predadores, impedindo estes de consumir todos os peixes que se alimentam de algas, mantendo assim o equilibrio deste frágil ecosistema. Em áreas onde sua presença é crucial, a extinção dos tubarões poderia arruinar as cadeias alimentares existentes e, no fim, até provocar a destruição de arrecifes de coral.

Vou aproveitar o tema para contar um pouco sobre a minha maior experiência com estes magnificos e importantes membros do ecossistema marinho. Isto aconteceu em Nassau, capital das Bahamas onde eu era um "alimentador de tubarões"...vamos lá:

Ser um “shark feeder” era um sonho antigo...bem antigo. Muitos não entendiam esta vontade e muitas vezes ja fui chamado de louco por querer estar tao perto destes animais...muito perto diga, se de passagem.
Tudo comecou ha mais ou menos 15 anos, quando assisti um documentario no discovery sobre tubaroes. Ali, um destemido mergulhador manipulava os animais e apresentava pela primeira vez na tv a imobilidade tonica, uma especie de transe que jovens tubaroes de algumas espécies apresentam ao serem virados de cabeca pra baixo. Este mergulhador era Stuart Cove, só que eu ainda não sabia disso. Fui descobrir só em 1996, quando assisti no GNT a série Dive Adventures sobre as Bahamas. Quando descobri o lugar onde se podia ter um contato tão intenso com os tubarões coloquei uma meta..trabalhar alí como Shark feeder!!!
Bom, depois de muito estudo, trabalho, ralação, a viagem pra Republica Dominicana (que vcs ja conhecem), contaos, e algumas noites sem dormir, fui contratado para trabalhar na famosa operadora de Stuart Cove, nas Bahamas.



O nome Bahamas vem da expressão espanhola "baja mar", traduzindo, "mar raso". O arquipélago ergue-se sobre duas plataformas marinhas separados por um abismo submarino, com profundidade de até 3,9 mil metros, conhecido como Língua do Oceano. O estrutura geologica do lugar favorece à proliferação de diversas formas de vida. Ali também se mesclam as águas do Atlântico e de uma corrente vinda do golfo do México que dão origem a um rico banquete de frutos do mar...e isso atrai tubarões de todas as partes. Estava no lugar certo para mergulhar com eles.



Uma vez em na equipe, não demorou muito para me tornar shark feeder. Foi o próprio Stuart quem me deu as primeiras lições. Depois aprendi com os outros feeders. Ainda me lembro bem da primeira vez... Saímos para o ponto conhecido como Bahama mama, onde havia uma comunidade de mais ou menos 20 Tubaroes Caribenhos de Arrecife (Carcharhinus Perezi). Foi só o barco chegar no local que os tubarões ja se aproximaram. Era preciso tomar cuidado ao cair na agua para não acertar um tuba...algumas pessoas podem achar que isso é loucura..bom, pode até ser...mas nesta vida tem louco pra tudo não é.


A verdade é que estes animais já estavam condicionados pois Stuart comecou com isso a mais de 15 anos.
Fizmeos um primeiro mergulho para ve-los nadando majestosamente entre os corais e o paredão que descia rumo ao azul. Só este mergulho ja valia a pena..mas o melhor ainda estava por vir. Durante o intervalo de superficie instruimos os clientes a ficarem ajoelhados e a cruzarem os braços para evitar qquer acidente. Eles cairam na agua primeiro, pois iriamos levar a caixa cheia de peixes. Desci junto com o experiente alimentador, e meu grande amigo, Tohru Yamaguchi. Havia 15 clientes que iriam assistir a sessão. O combinado era ele conduzir metade da alimentacao e me deixar a outra metade. Estava ancioso.
Enquanto ele alimentava os famintos tubarões eu o observava, tentando entender o "timing", os movimentos dele e a reação dos tubaroes. De repente ele me faz o sinal e percebi que chegou a minha vez. Nao me lembro de ficar nervoso, de sentir medo...sei la...a sensacao era de uma uma mescla de euforia e total integracao com a natureza. Senti dificuldade de espetar os peixes da caixa com o arpão que usavamos para dar a comida e tomava cuidado pra que o peixe não escorregasse em direcao a minha mao. Esperava sempre o momento certo e quando achava que era a hora...tirava o peixe e colocava na boca do tubarao. Terminamos a sessão com sucesso...e sem acidentes.

Dalí pra frente fui aprimorando cada vez mais e em pouco tempo ja havia conquistado a reputação de um dos melhores alimentadores da equipe.
Um Shark feeder precisa interagir com os animas e saber a hora certa de alimentar. É fundamental ter muita calma e concentração para evitar um frenesi alimentar. Além disso, é necessario uma sincronia com o videografo que filma a sessão para posteriormente vender os videos para os clientes.



Tomei muita mordia, muita cabecada, rabada e as vezes ficava muito cançado. Entretanto encarava tudo como uma arte, e como em toda arte, fazia com paixao, com amor. Passei a conhecer mais sobre estes animais e aprimoramos o curso de Shark Awareness, um programa muito interessante e que hoje trouxe para o Brasil.



Existe uma grande polêmica em torno desta prática. Muitos alegam sobre o perigo desta relação intima entre "mergulhadores e tubarões" e sobre esta intervenção artificial. Bom, como em tudo na vida existe prós e contras. Acredito que no caso das Bahamas há mais prós do que contras. Devido ao esforco de Stuart e outros operadores a pesca dos tubarões foi proibida. O Governo percebeu que um tubarão vivo vale muito mais do que um tubarão morto. A grosso modo, um tubarão nas Bahamas pode atrair até 200 000 dólares em renda de turismo durante sua vida. Muito mais do que ele valeria em um mercado de peixes...não é?

Além disso, as pessoas que visitam as Bahamas e vivenciam esta experiência ficam fascinadas por estes animais. Muito se tornam embaixadores em defesa dos tubarões e passam este conhecimento adiante.

Este é um exemplo que pode ser seguido mas outras formas de interação e proteção também podem ser desenvolvidas. Nós também podemos fazer a nossa parte apoiando organizações que se envolvem com a preservação dos oceanos, aprendendo mais sobre os tubarões e sobre o meio ambiente marinho, não consumindo produtos derivados da pesca predatória de tubarões, exigindo das autoridades competentes providencias no manejo da pesca de tubarões e dizendo a todos amigos, colegas, parentes e afins, o quão importante estes animais são para os oceanos.

Se cada um fizer a sua parte, passando adiante esta causa, mudaremos a imagem que as pessoas tem dos tubarões e não veremos mais notícias como as que vimos nesta semana.

Sinto saudades dos tempos das Bahamas e com certeza irei visitar suas aguas novamente.


www.diveadventures.com.br